A questão da vaidade masculina: barba, cabelo, bigode e muito mais

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O empresário Robson Coivo, de 41 anos, o jogador de futsal Thiago Perez, de 27 anos e o estudante de direito Adolfo dos Santos Souza, de 28, não se conhecem, têm histórias de vida distintas uma da outra e mesmo assim contam com um ponto em comum: são vaidosos. Em busca de bem-estar, esmeram-se em cuidar da aparência e movimentam um mercado que está em alta.

O resgate da tradição das antigas barbearias, agora com decorações modernas, é um termômetro dessa tendência. O uso da barba também voltou a ser marca de moda e estilo. E os reflexos significam ganhos em confiança, credibilidade, melhoria nas relações socias e pessoais.

Homens com o comportamento de Robson, Thiago e Adolfo estimulam o surgimento de ampla demanda de serviços, profissionais especializados e estabelecimentos que oferecem muito mais do que fazer barba, cabelo e bigode. Eles mostram que, paralelamente ao universo da beleza feminina, cuidar da estética também é uma preocupação do mundo masculino.

Barba de lenhador

“Hoje em dia a gente sempre tem a preocupação de estar arrumado, passar uma imagem para as pessoas; a gente gosta de se sentir arrumado, de se sentir bonito”, descreve Adolfo no instante em que acaba e cuidar da barba e se prepara para o corte de cabelo num salão de beleza do Jardim Astro. Adepto do uso da barba, diz que em casa não consegue mantê-la alinhada e por isso procura os serviços do barbeiro Sandro Siqueira, de 37 anos. “Ainda mais num ambiente desse em que você pode se divertir com o pessoal”, elogia.

Adolfo também estende a vaidade à maneira de se vestir e acredita que os cuidados trazem benefícios que se conectam com o bem-estar. Sempre usou barba, mas nunca tinha deixado que ela crescesse. Habitualmente ele mesmo cuidava, passando a gilete, e agora prefere ir à barbearia na busca de um melhor alinhamento. A aprovação das outras pessoas é retorno importante: “A namorada principalmente, o pessoal da faculdade nota, fala, pergunta.”

Para os momentos de espera, Adolfo e outros clientes têm à disposição som de boa qualidade, água e cerveja e, se alguém solicitar, também há os destilados. No centro do salão, a mesa de bilhar convida a uma partida. “A gente oferece um conforto bem legal para o cliente, ele acaba ficando cada vez mais à vontade”, descreve Sandro.

O ambiente também é bom para o barbeiro, diz Sandro: “A gente faz estilo próprio.” Isso inclui o cabelo do barbeiro também cuidado, o que se torna um referencial de qualidade do trabalho. “A gente procura agradar o cliente da melhor forma possível, essa que é a ideia da gente”, explica Sandro.

A mídia e suas personalidades influenciam as tendências: o resgate da barba gerou o rótulo de “lumbersexual”, palavra que evoca o lenhador norte-americano e que no Brasil ganhou representantes como os atores globais Cauã Reymond e Bruno Gagliasso, entre outros. No começo dos anos 2000, a tribo da moda era a dos metrossexuais, personificados em jogadores de futebol como David Beckham e Cristiano Ronaldo.

Massagem relaxante

O bem-estar está na meta de Thiago quando procura uma massagem relaxante num salão com serviços diversificados no bairro do Campolim. Ele explica que essa solução o ajuda a relaxar os músculos após os treinos: “Eu me sinto pesado fisicamente, a massagem dá um alívio muito grande.”

Thiago também usa barba e não se inspira em tendência de comportamento: “Fui deixando crescer, fui gostando. É uma questão pessoal, não baseado em alguma coisa particular. Tento fazer alguma coisa minha, uma coisa que me agrade. Tanto na hora de me vestir, gosto de combinar.” As roupas não precisam ser de marca famosa: “Para mim algumas combinações ficam legais e me agradam quando me vejo no espelho.”

Higiene e marketing

Robson acrescenta que a vaidade tem a ver até com a higiene: “Um homem fazendo a unha, usando uma roupa limpa, tem a ver com higiene pessoal.” Ele admite que procura estar antenado com moda e tendência. Suas inspirações são vitrines de shopping: “Eu nunca saio com o cabelo desarrumado.”

Na avaliação de Robson, a vaidade também é um marketing pessoal: “A imagem diz muito sobre a pessoa: o corpo fala. Você acaba sendo referência pela sua forma de se vestir, de se pentear, a marca e a roupa que você usa.” Com o cuidado de não se endividar com roupa, admite, no entanto, que entre usar peças de marca e outras não, opta pela primeira alternativa porque ela garante durabilidade: “Isso pode ser vaidade.”

Sem preconceito

Quanto aos antigos preconceitos sobre homens atentos aos cuidados com a aparência, não há problema. Eles identificam pouco ou nenhum preconceito nas outras pessoas. O que importa, acentuam, é se sentir bem. Não veem problema se isso significa fazer limpeza de pele, sobrancelha, unhas, depilação ou qualquer outro procedimento desse tipo.

O cabeleireiro masculino Alexandre Boy, de 42 anos, não vê existência de preconceito e acredita que os homens atualmente não se preocupam com isso.

Por sua vez, Thiago observa que a satisfação com a aparência também eleva o nível de “confiança” que o indivíduo tem em si mesmo e isso faz a diferença nas relações sociais nos mais diversos ambientes, do trabalho à recreação, do esporte à balada de fim de semana.

Quanto custa a vaidade masculina

Vaidade também custa dinheiro. Em barbearias que se diferenciam por decorações modernas e outras atrações que vão de bebida a lanches, por exemplo, cortes de cabelo podem sair por R$ 45 ou R$ 60. O alinhamento da barba é encontrado a preços como R$ 35 e R$ 45. Cuidar das sobrancelhas pode custar em torno de R$ 25.

Os preços podem ser mais caros em outros serviços. O homem pode encontrar massagem relaxante a R$ 90 por 50 minutos, depilação a laser definitivo entre R$ 180 e R$ 400, limpeza de pele a R$ 90, e tratamentos faciais podem ir de R$ 150 até R$ 2.500. E um tratamento de gordura localizada pode custar de R$ 700 a R$ 1.500.

Para quem tem condições de conciliar a vaidade aos custos, os valores não inibem os homens. Na avaliação do cabeleireiro masculino Alexandre Boy, com a experiência de 19 anos de profissão, “98% (dos homens) cuidam da aparência”. Um sinal dessa participação, ele diz, é a concorrência acirrada entre os cosméticos masculinos e femininos.

“É de igual para igual”, compara Alexandre. Isso inclui os cremes faciais e para as mãos, óleo para barba, bons condicionadores e xampu, uma boa linha de tratamento para o cabelo. Ele informa que os homens vão aos salões e barbearias para fazer, além do cabelo e da barba, sobrancelha, limpeza de pele, tintura, manicure e pedicura.

Ambiente descontraído

O ambiente também é ponto de encontro que proporciona relações de amizade, oportunidade de trocar ideias e até mesmo chance de fechar negócios. Alexandre presencia clientes que, durante o atendimento, manifestam interesse em vender casas ou carros. De repente, uma oferta espontânea como essa pode ser ouvida por outro cliente e uma negociação pode ser iniciada: “Network, sempre deu certo.”

A esteticista Tatiani Silva Wey, de 34 anos, trabalha no atendimento a homens e mulheres e isso lhe dá base de comparação. Segundo ela, ao contrário da mulher, o homem prioriza o bem-estar sobre o aspecto estético: “Ele não vem aqui procurando cuidar da ruga, vem aqui para se sentir bem: “se eu não estou com dor eu estou bem, não importa a ruga”. A mulher, por sua vez, quer o tratamento completo: quer cuidar da ruga, da celulite, da estria. “Homem não se importa com estria, por exemplo, se importa com o bem-estar dele.”

A vaidade masculina se manifesta de outras formas. Tatiani admite que o homem se preocupa muito com o visual e vê essa atenção como positiva, pois, na sua opinião, a relação com a credibilidade é direta: “A sociedade vê muito isso: como você está vestido, como está se comportando, como está o seu cabelo.” Isso também depende da função no mercado de trabalho: “Ou então se você quer ser um pouco mais diferente, atípico em relação ao convencional, um visual mais descolado, seja muito bom naquilo que você vai se propor a ser.”


Padrões dependem de contexto cultural

A opinião da mulher tem tudo a ver com a vaidade masculina e, independentemente da classe social a que os homens pertençam, eles estão se cuidando mais. Esses aspectos são admitidos pela psicóloga analista de comportamento Patrícia Taira. “Também as mulheres gostam com que os homens vão lá e se arrumem”, diz. Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Patrícia sobre a vaidade masculina e as relações com a sociedade:

Cruzeiro do Sul – Do ponto de vista masculino, quando se fala na beleza entre pessoas, pensa-se em mulher. Existe beleza masculina?

Patrícia Taira – Existe.

CS – E ela é caracterizada pelo quê? Existe padrão?

PT – Depende do contexto cultural. Cada época tem o seu padrão de beleza, tanto masculina quanto feminina. Atualmente a barba voltou com muita força. Os homens, hoje em dia, são reforçados pela sociedade para ter a barba e para mantê-la.

CS – No sentido de seguir essa tendência?

PT – Quando eu falo “reforçador” (é no sentido de que) as pessoas elogiam, fazem com que o comportamento seja repetido. Aumenta a probabilidade de a pessoa continuar se cuidando mais, do comportamento se repetir. Se você vai lá e faz a barba e todo mundo elogia você, você vai lá e faz de novo.

CS – Além de barba, cabelo e bigode, barbearias oferecem outros serviços associados à vaidade.

PT – Os homens são vaidosos também. Atualmente é muito mais fácil para eles se mostrarem mais vaidosos porque não são tão recriminados quanto antigamente.

CS – Beleza e vaidade: uma coisa está ligada à outra? Ou não necessariamente?

PT – Vaidade vai de cada pessoa. Cada pessoa vem de um contexto histórico de vida diferente. Não dá para generalizar e falar “isso é de todos os homens” ou “isso é de todas as mulheres”. Vai de como a pessoa cresceu, foi criada.

CS – A classe social à qual o indivíduo pertence também interfere nesse comportamento de busca da beleza e exercício da sua vaidade?

PT – Sim, interfere. Uma pessoa que não tem condições não conseguiria ir se cuidar numa barbearia super chique. Mas eu acho também que, independentemente da classe social, os homens estão se cuidando mais. Todo mundo é de certa forma vaidoso. Se naquele contexto que a pessoa vive de uma classe, ele está inserido naquela classe, ele vai se comportar de forma como classe (a que pertence).

CS – Existe diferença entre vaidade masculina e vaidade feminina?

PT – Acredito que não.

CS – Por que não?

PT – Vaidade é vaidade. Depende do que significa vaidade para cada pessoa. Vaidade para mim é o autocuidado, é me sentir bem.

CS – A opinião da mulher tem muito a ver com a vaidade masculina também?

PT Também as mulheres gostam com que os homens vão lá e se arrumem. Imagine o seguinte: há um homem que todas as mulheres acham bonito. Uma pessoa normal pensa: se todas acham ele bonito, vou me cuidar também.

Tatiani é esteticista e diz que os homens priorizam o bem-estar – FÁBIO ROGÉRIO
Sandro é barbeiro e diz que os clientes se sentem à vontade nas barbearias modernas – FÁBIO ROGÉRIO
Adolfo: namorada aprova – FÁBIO ROGÉRIO

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